8 – CRITÉRIOS QUE JUSTIFICAM O ESQUECIMENTO

Tradução por Paulo Santos

Tres tumbas          Se consideramos o culto jacobeu verosímil e transcendente, questiona-se como pode ter sido esquecido? Não deveria ser difícil resolver esta questão se considerar-mos que hoje em dia esquecemos a localização da sepultura de familiares não muito longínquos cuja memória passa a ser ignorada pelos nossos filhos. Na Galiza é bem fácil que inúmeras espécies vegetais se apoderem da pedra, a encubra, e inclusive que a absorva através do seu verde silêncio. Em outras partes do mundo, templos, povoados e civilizações inteiras têm sido ocultados por baixo da espessura da floresta. Não seria difícil a ocultação no bosque galego de um túmulo, que poderia literalmente ficar soterrado por uma vegetação emaranhada nos troncos e nas pedras, em que o matagal não permitia qualquer curiosidade, e que servisse além de covil a lobos, raposas e outros animais, seria também invisível e inacessível aos homens. A tradição pôde perdurar, mas ficando apenas a sua mensagem de mistério transmitido de geração em geração, talvez confundida com velhas tradições que existiram com tais contornos.

          Mas teria antes de mais nada que, assinalar que nunca existiu a necessidade de ser esquecido, dado que a situação nunca foi, nem nunca chegou a dar-se a conhecer de modo formal e que se limitou a um exercício de âmbito local, contido por circunstâncias históricas que impediram sua expansão e limitaram a uma prática circunscrita.

          Mesmo assim é importante expor algo que dificultou a identificação dos factos e sobretudo da personagem, cuja identidade já vimos que historicamente, como em tantos outros casos, se viu deformada por componentes de lendas e mitos que complicam o reconhecimento do protagonista.

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          A identificação de factos e personagens viu-se deformada por partes de lenda que tornam difícil o seu reconhecimento, resultando a CONFUSÃO DOS SANTIAGOS. Sobre os territórios onde pregou e de sepultura, os códices anteriores ao descobrimento do túmulo jacobeu, mostram um significativo contraste entre a localidade de destino, dos diferentes apóstolos, em relação ao destino plural do Apóstolo Santiago. Porquê esta diferença? A causa está na confusão entre os personagens com o mesmo nome: Santiago, o Maior, Santiago, o Menor, e Santiago Alfeo. Na tradição ocidental, Santiago, o Menor, é Santiago Alfeo, e identificam-se como sendo a mesma e única pessoa, e que seu pai, Cleofás, é o mesmo que Alfeo. Enquanto a tradição oriental, identifica-os como personagens diferentes, o que nos dá ideia da complexidade de critérios históricos para identificar ou diferenciar algumas personagens.

          Alguns autores sugerem um quarto Santiago, não bem identificado no autor da Epístola Evangélica, próprio de um redator com um refinado domínio grego, um estilo literário e uma mentalidade semítica que não encaixa bem com os anteriores e que abre a opção de outras possíveis personagens com este nome.

Coptic_Christian_Church_relief_wall          A relação de personagens com o nome de Jacobo ou Santiago amplia-se com Jacobo, bispo de Nisibe, chamado o Grande (†338), Afrates (270-345) que adotou o nome ao ingressar num mosteiro de Antioquia e confundiu-se com o anterior, Jacobo, o Interciso (†421), Jacobo Ciríaco (século V), Jacobo de Sarug (451-521), Jacobo da Palestina, chamado o Ermitão (século VI), e particularmente, Santiago Baradeo (†578), monge sírio e último bispo de Edessa no ano de 541, que atingiu fama como líder do monofisismo, com adeptos designados de jacobitas, que pregou em terras da Marmárica (atual Líbia), onde morreu e foi enterrado. Este túmulo de Santiago em Marmárica, que é citado por alguns códices, não deve ser o de Santiago, o Maior, mas sim de Santiago Baradeo. Excluindo as interpretações que se deram ao vocábulo “Marmárica” e a sua possível explicação, o que parece ocorrer é que se amalgama a figura de um Macro-Santiago único, em que se confundem as personagens, o lugar de predicação e o de sepultura.

 OLYMPUS DIGITAL CAMERA         Entende-se que “in acha marmarica” é uma expressão equívoca sem um significado claro de localização. Manuel C. Díaz e Díaz reconhece a confusão e define-a como lectio difficilior (leitura mais difícil) ou expressão que designa o princípio de códigología segundo o qual, de duas ou mais leituras de uma passagem, se escolhe a mais difícil, talvez por ser a mais genuína, tendo em conta que o escrivão ou copista pretendeu corrigir o que se apresentava incompreensível. Como consequência, é um topónimo indecifrável que tem sido modificado na tradução manuscrita, aparecendo de diferentes formas em diferentes fontes, gerando diversas interpretações. Outros autores falam de “deturpação” ou deformação de um vocábulo pela interpretação que o copista lhe dá com base no seu próprio conhecimento, transcrevendo erroneamente um topónimo primitivo. Se o termo se refere a Marmárica norte africana (atual Líbia), não pode ser conotada a Santiago, o Maior, pois nenhuma tradição o situa nessa região, mas sim tratar-se do mencionado Santiago Baradeo; ou a Santiago Alfeo, a quem alguma tradição coloca pregando em África.

          Deste modo, é provável a existência do culto jacobeu antes de alcançar a sua difusão no século IX, e sobram razões que justificam a confusão e o esquecimento, como o anonimato apostólico, o interesse tardio pela vida dos apóstolos, a clandestinidade do processo jacobeu, a confusão sobre a figura de Santiago, os enganos sobre o topónimo, as razões das perseguições romanas, a invasão pelos suevos e o Islão, e os despovoamentos provocados por guerras, doenças ou fomes. Se estes factos separadamente podem explicar a perda de uma passagem longínqua e local da história, possuí maior impacto, quando todos se associam.

          A conclusão que podemos depreender é que é possível a existência de um culto local, primeiro de forma ocultada ou esquecida e depois ressurgida e difundida a partir de um momento favorável.

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