17P- A CRUZ DOS FARRAPOS

Tradução por Paulo Santos

puerta-santa          Se nos colocarmos junto ao muro do Convento de San Paio de Altealtares e entre as duas Quintanas, Quintana dos Mortos e Quintana dos Vivos, surge-nos a fachada este da Catedral, e a Porta Santa, com a particularidade, que somente desta localização, ainda que com dificuldade, se pode visualizar, junto da cúpula, uma cruz grega, que no passado, marcou o ponto de finalização da peregrinação jacobeia.

          Originalmente, esta cruz, encontrava-se nas imediações da entrada norte da Catedral românica, dCatedral,_claustro,_02-38esignada por Porta do Paraíso, localização de chegada e entrada tradicional dos peregrinos do Caminho Francês, onde podiam assear-se na fonte mirabilis do Séc. XII (atualmente situada no claustro catedralicio) e deixar as suas velhas roupas na Cruz dos Farrapos, surgindo o seu nome devido aos trapos que os peregrinos ali depositavam, como ritual tradicional de finalização da peregrinação a Santiago de Compostela, em que num ato de celebração e higiénico, queimavam as suas velhas roupas aos pés da mencionada cruz.

          fachadatraseradelacatednh7No Séc. XVII, um incêndio provocou a substituição da portada românica norte pela atual do Séc. XVIII, iniciada com estilo barroco por Lucas Ferro Caveiro e finalizada em estilo neoclássico de acordo com a diretrizes de Ventura Rodríguez. A cruz foi transferida para o telhado da catedral, onde ainda se encontra e pode dsc00295ser visitada, situada no passeio, sobre a abóboda da abside mais próxima do cruzeiro. Da cor azul-turquesa, sujeita a tantos séculos de intempéries, com a altura cruz-corderode 2 metros, possuí uns braços em forma de trapézio, formados por lâminas de ferro e cobre, confluindo pelo seu lado mais pequeno num círculo, e incrustada num bloco de pedra em forma de cordeiro, símbolo de sacrifício.

          imagesA sua base apresenta uma construção, em pedra, de um forno incinerador, onde os peregrinos continuaram a tradição de queimar as vestes que tinham usado durante a peregrinação, como renovação e purificação, significado de renúncia da sua vida anterior e início de uma nova vida. A pedra ainda apresenta vestígios de calcinação pelo uso frequente, com registos do Séc. XVI, mas como ritual muito anterior, documentado que o Cabido Catedralicio proporcionava nova roupa aos peregrinos. Algumas lendas medievais afirmavam que não passar pelo buraco que existe na base da cruz, estaria em pecado mortal, muito idêntico com outras lendas galegas relativas á pedra furada.

peregrinosJuan Dorado

 

          Nem sempre a roupa era queimada, quando era proveniente de peregrinos nobres, o vestuário era de boa qualidade e reutilizável, permanecendo no pilão ou nuns ferros que existem pela parte exterior do gradeamento das janelas da cúpula, e leiloado posteriormente. Datado do Ano Santo 1490, existem documentos nos arquivos da Catedral que dos leilões resultou a quantia de 51.000 maravedis (moeda da época).

          ???????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????Mas em outros casos, quando as roupas estavam muito deterioradas, resultado de longa peregrinação com escassa higiene e impregnada de suores, chuvas e sujidades, então o mais correto era a incineração, e nada melhor que o fazer nessa estrutura quadrangular de cantaria em granito, reduzindo o imprestável e maltratado vestuário em cinzas que finalmente a chuva acabava por diluir e eliminar por um escoamento existente no fundo do mesmo, em que a altura da Catedral resultava na localização ideal.

Quando os peregrinos chegavam a Santiago, após a sua longa peregrinação, o primeiro ato que realizavam era cumprimentar e render honras ao Apóstolo no altar maior através do ritual do abraço, dando graças por ter conseguido chegar, e a seguir, dirigiam-se ao telhado da Catedral, protegido por umas balaustradas, até a Cruz dos Farrapos, onde realizavam o ritual da queima e substituição da roupa, e deste modo davam por concluída a romagem.

Como sugere José María Máiz Togores, a cruz era peça imprescindível na história do Caminho de Santiago como coluna que suportava os farrapos ou remendos, fossem físicos ou morais, dos peregrinos que chegavam a Compostela extenuados de uma esgotadora viagem, dando amparo às suas almas, escutando os seus lamentos e atestando a mudança da esforçada penitência na alegria e júbilo do perdão. Lamas CarvajalTestemunha fiel durante séculos da conversão que experimentaram muitíssimas almas, a outrora cativante e emblemática Cruz dos Farrapos ficou esquecida nos telhados da Catedral com o abandono deste ritual. Com sentida nostalgia, Lambas Carvajal recorda a tradição perdida e adverte ao peregrino que não vá em ilusões “pois quando chegas ali esmorecido, ninguém te dará roupa nova para trocar pela velha que trazes, porque hoje a essa cruz esquecida ninguém dedica amparo”.

100_0325          Recuperando parte de seu perdido valor, hoje pode-se visitar a Cruz dos Farrapos, ainda que a maioria das vezes só para ser observada pela curiosidade humana e turística dos visitantes que realizam a visita guiada ao Palácio de Gelmirez e o trifório catedralicio por onde há acesso direto aos telhados da Catedral, que nos permite uma visão única da Catedral e de Compostela, e que já era recomendada no século XII no Códice Calixtino.

vista interior (mía)Vista tejados

 

 

          Não esquecida por todos, a Cruz segue atenta as observações e sensações dos peregrinos, ainda que sem farrapos, e momentos de amparo. Encontra-se extinto o papel gratificante desta cruz para muitos peregrinos e sem o emblemático significado de conclusão que representou na história do Caminho.

          FinisterreA queima dos farrapos constituiu um ritual tão enraizado que a querencia popular reinstauro esta tradição em Finisterra como esse valor de conclusão da peregrinação. A queima de roupas, que até então não era uma tradição em frente ao mar, encontrou nova localização e chega a constituir um verdadeiro problema municipal com risco de incêndio, acumulação de detritos e danos à natureza 6781579279_bfc0ef1fb8_zenvolvente, por não existir nenhum tipo de infraestrutura preparada para este fim no uso desordenado desta deslocada tradição peregrina. Desconhecendo a origem, estes peregrinos talvez regressem orgulhosos e falarão da magia deste ritual onde criaram uma interligação com o mar e a terra. A realidade é que, reinventando uma tradição que já não tem muito sentido, têm deixado um montão de lixo e danificado um lugar natural. Os restos de fogueiras, de roupa parcialmente queimada ou diretamente atirada para as escarpas do cabo dão uma imagem deplorável de uma zona tão maravilhosa como Finisterra que por seu valor emblemático todos devemos 1012630_137071033158811_598462377_ncuidar. Entretanto, foi construído uma plataforma específica de granito para estes usos e evitar danos à natureza e a acumulação de desperdícios, investido de uma fictícia tradição pagã. Muitos preferem esquecer ou ignorar a verdadeira origem deste ritual e dão-lhe valores históricos que nunca existiram mas que resulta num romantismo atrativo.

          Peregrino Jacobeu, és sempre tu quem decide como e onde termina teu Caminho, não te deixes levar por correntes nem modas, porque podes ser turista ou peregrino tanto perante o mar como diante da Catedral. Se visitas os telhados e passas junto a essa Cruz que durante tantos anos concedeu consolo ao peregrino, independentemente do teu credo, não deixes de apreciar seu emblemática função, pois ainda que pareça que se perdeu, o seu valor é eterno.

Cruz dos Farrapos  Fotografía de Xosé Castro

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