12 – CRITÉRIOS DE INTEGRIDADE E CONTINUIDADE DA EDÍCULA (NICHO) E DOS RESTOS

Tradução por Paulo Santos

No âmbito deste processo dinâmico de análise, encontramos uma série de critérios, alguns já mencionados mas importa, nessa perspetiva, abordar outros.

Ara de san paio - copia          ALTAR DE SAN PAIO É o título ou lápide pagã que contém a dedicatória original na frontaria ou entrada do mausoléu. Reconvertido em altar cristão para o culto a três homens muito venerados que centralizaram a ocupação do mausoléu entre a segunda metade do Século I e o início do Século II. Com este novo uso, manteve-se na sala superior da Edícula (nicho) sepulcral, como área para o culto, permanecendo até à construção da catedral românica em que, de acordo com a Concordia de Antealtares do ano 1077 entre o Abade Fagildo e o Bispo Diego Peláez, a redistribuição do culto apostólico, anterior à edificação da catedral, implicou uma cedência de terrenos e funções ao mosteiro, que provocou a alteração de certas mordomias, além do altar em questão, e que desde então passaram a conservar como recordação do culto que tinham tido até essa data a seu cuidado.

          Atualmente o convento de freiras de clausura, contém um museu de arte sacra onde se expõe o altar sobre um pilar, tal como esteve durante séculos na Edícula (nicho) sepulcral.

O altar teve uma inscrição pagã original, de que se conserva cópia e cujo texto pode encontrar ligação com a lenda acerca da rainha Lupa na Tradição Jacobeia, e que pode ter tido aceitação do Apóstolo no mausoléu familiar. O Texto e a tradução citam assim:

Ara de san paio 2

“D(is) M(anibus) S(acrum).
ATIA MOETA T(estamento)
TETLUM P(osuit) S(omno) A(eternali)
VIRIAE MO(etae)
NEPTIS PI(entisimae) AN(n)O(rum) XVI
ET S(ibi) F(aciendum) C (uravit).

Consagrado aos Deuses Manes
Atia Moeta, por disposição testamentário
fez colocar este epitáfio ao sonho eterno
de Viria Moeta
sua boníssima neta, de 16 anos
e procedeu ao seu próprio enterro.

MMosaico estratigrafía          MOSAICO SEPULCRAL A estratigrafia arqueológica aplicada ao recinto da Edícula (nicho) sepulcral romana, permite o reconhecimento de um mosaico num primeiro pavimento da mesma, eliminado e substituído por um segundo mosaico num segundo pavimento. Trata-se de elementos de ornamentação interna da Edícula (nicho), já cristianizado, para enaltecer o culto. Este estudo reconhece a existência de uma época arqueológica inalterável entre a segunda metade do Século II e o Século IX em que acontece a descoberta por parte de Teodomiro, período que garante a preservação da câmara sepulcral e do seu conteúdo. Isto é, o que descobre Teodomiro foi sepultado antes de terminar o Século II, certamente durante a segunda metade do Século I, e durante toda a extensão de tempo até o Século IX, não se realizou na Edícula (nicho) nenhum outro enterro, dado relevante para considerações posteriores.

          SEPULTURA E LÁPIDE DE TEODOMIRO Como anteriormente referido, a descoberta da sepultura do bispo Teodomiro e particularmente da sua lápide, creditam a realidade histórica da personagem e a importância do seu descobrimento jacobeu. O que Teodomiro descobriu, a poucos quilómetros de Iria Flávia, sede da diocese, teve que ser algo com enorme importância, dado que provocou a alteração da sede episcopal, de facto (ainda que não de direito) para o lugar onde foi encontrado o sepulcro e que acabou por constituir a atual Compostela.

          Foi encontrado no interior de um recinto geminado com a metade do muro sul da basílica mandada edificar por Afonso III, uma grande pedra granítica com as dimensões de 2,22 m de comprido, por 0,88 m de largura na cabeceira e 0,72 m nos pés, apresentado as bordas arredondadas e decoradas nos contornos por uma meia cana. A inscrição, como feito singular, está gravada dos pés à cabeça.

Lauda lugar hallazgoRecinto teodomiro

          Também é extraordinária a cruz que a antecede e, que ocupa toda a primeira base da lápide, é processional e possuí a mesma forma da que Afonso II doou a San Salvador de Oviedo no ano de 808, bem como a que recebeu a igreja de Santiago no ano de 874 de Afonso III. O texto menciona o seguinte:

Lauda texto

IN HOC TUMULO REQUIESCIT
FAMULUS D (e) I THEODOMIRUS
HIRIENSE SEDIS EP (i) S (copus) QUI OBIIT
XIII K(a)L(en)D(a)S N(ovem)BR(I)s era DCCCLXXXVA

Nesta tumba descansa
o servo de Deus Teodomiro
Bispo da Sede Iriense que faleceu
nas décimas terceiras Calendas de Novembro da era DCCCLXXXV

          Deste modo, atesta Teodomiro, bispo de Iria Flávia, protagonista da descoberta do Sepulcro Apostólico, da edificação do primeiro templo e do começo da difusão pela Europa da notoriedade de Compostela, instaurando-se como foco de peregrinação da cristandade, como um dos mais santos do mundo. Este bispo guarda o segredo de um dos enigmas históricos mais apaixonantes, como é a identificação do túmulo do Apóstolo Santiago, então aceite por todos, num lugar onde ninguém podia imaginar e só excecionalmente indicado que foi em terras do noroeste Hispano. A inscrição permite finalmente conhecer a data, até então desconhecida, da sua morte: 20 de outubro de 847.

A lápide estava removida da sua colocação original; o recanto que bordeia a sua frente inferior mostra que pertenceu a um sarcófago. Foi encontrada tombada sobre uma camada de escombros; mas na vertical e a 80 cm de profundidade descobriu-se uma cova coberta por outra pedra de granito que contém os ossos de um homem de idade muito avançada. A condição do ossário, não da primeira sepultura, e o enlace intencional entre a cova e a lápide indicam que os ossos devem ser os de Teodomiro. Que o ossário e a lápide estejam centrados num recinto posterior à intervenção de Almanzor, evoca-nos a petição de quem naquele “tumulto” cuidou de preservar e recolher os restos venerados, e que terá sido seguramente o bispo restaurador Pedro de Mezonzo.

          VALOR RELICARIO MÚLTIPLO As Basílicas de Afonso II (834), e Afonso III (899), surgem ambas com o propósito de albergar a Edícula (nicho) romana na sua cabeceira, como depois acontecerá na própria catedral. As obras da abside e da nave transversal da catedral iniciam-se em 1070, mas entre a paralisação das obras, durante alguns anos, e a data em que é retomada, a basílica de Afonso III persiste até 1112. À data, a catedral românica cobre um grande lanço da basílica asturiana, procedendo-se então à sua demolição, de modo que, durante mais de 30 anos, podemos encontrar um relicário arquitetónico múltiplo: um exterior harmonizado pela catedral românica do Século XII, outro médio que foi da basílica asturiana do Século IX, e um central que era a Edícula (nicho) sepulcral romana do Século I. Não se trata de um grande argumento demostrativo senão de um critério gráfico que reflete de modo admirável a transição no tempo do conhecimento de algo que é guardado com grande veneração.

Relicario

Efecto reliquiario 2Efecto reliquiario

Almanzor          A destruição de Compostela por ALMANZOR é outro momento importante que questiona a integridade da Edícula (nicho) e do seu conteúdo. O caudillo andalusí, regente do califa Hisham II, depois de Barcelona (985), Coimbra (987), León e Zamora (988), destruiu Santiago de Compostela no ano de 997. No tempo em que a Galiza estava completamente livre da dominação muçulmana, e integrante no Reino Astur-Leonés. Foi o prestígio de Santiago, valorizado como uma Meca Cristã, o que levou a Almanzor a dirigir uma expedição contra Compostela, ainda que o motivo tenha estado na origem do rei Bermudo II em não satisfazer o tributo ao califado. A expedição teve como destino Compostela desde a sua saída de Córdoba a 3 de Julho de 997, designada pelos cronistas árabes a expedição de Shant Yaquib, tendo a cavalaria e as suas provisões seguido por terra, enquanto a infantaria, armas, munições e máquinas de guerra deslocaram-se por via marítima até ao Porto, onde se juntaram outras forças, nomeadamente condes cristãos espanhóis e lusitanos, que reconheciam a autoridade de Almanzor, e que na visão estritamente militar não se aperceberam dos critérios que levaram ao patrocínio religioso pró-reconquistador.

          Após arrasar Iria Flávia, chegaram a Compostela a 10 de Agosto de 997, onde encontraram uma cidade abandonada pelos seus habitantes. Os muçulmanos apoderaram-se de todas as riquezas e derrubaram as construções, as muralhas, a basílica, e as igrejas e palácios. O historiador hispano muçulmano de Córdoba Ibn-Haygan escreveu, no Século XI, que Santiago era tão venerável como Meca, e que para um muçulmano a sepultura de um santo é sagrada. O historiador muçulmano Ibn Idari al-Marrakushi conta que Almanzor mandou que fosse colocado guarda para fazer respeitar o túmulo e a Edícula (nicho) sepulcral, impedindo que fosse profanado e que recebesse dano algum. O anónimo autor do “Dikr bilad al-Andalus” refere que Almanzor arrasou a cidade e destruiu o templo, mas não mexeu no túmulo. A coincidência entre as crónicas árabes e cristãs em relação ao sepulcro é o que dá valor histórico ao facto. Inclusive existem crónicas que referem que Almanzor apenas encontrou um velho monge sentado junto ao túmulo do santo. Perguntou-lhe: “Por que estais aí?”, ao que este respondeu: “Para honrar a Santiago”, e deu ordens para que o deixassem tranquilo. Alguma crónica cristã identifica o monge que dialogou com Almanzor como São Pedro de Mezonzo, então prelado de Iria-Compostela, segundo relato que recolhe López Ferreiro na sua história do S. A. M. Igreja de Santiago.

          Campanas de CompostelaDepois de saquear a comarca de Santiago, Almanzor retirou-se para Córdoba com um rico tesouro, sendo transportado em ombros por cristãos cativos, os sinos da Basílica e as portas da cidade em madeira para fazer ornamentos para a mesquita (serão retornadas depois da tomada de Córdoba em 1236 por Fernando III, o Santo). No regresso, destrói também o santuário de San Millán da Cogolla (de quem também se proclamava a intervenção antimuçulmana), arrasa algumas comarcas e populações, e conquista Burgos (1000). A imagem de protetor de Santiago fica arruinada. Se tudo Almanzor_campañastivesse sido uma montagem fictícia, Almanzor tinha destruído Santiago como fez com a cidade. Mas existia um impulso que voltou a levantar a Basílica Jacobeia sobre o que se considerava o sepulcro do Apóstolo, e que tinha sido respeitado, por uma convicção não gerada por uma febre de reconquista nem por um fanatismo religioso. O que o caudilho andaluz respeitou, não foi nem o suposto prestígio mata-mouros e reconquistador do guerreiro de Clavijo, nem a ânsia protetora do patrão da cristandade hispânica, mas sim o culto ao Apóstolo Santiago que se venerava. Abu Bark, sogro e sucessor de Mahoma, dizia aos seus homens (Século VII): “Nos países cristãos, encontrareis na vossa rota homens piedosos que servem a Deus nas igrejas e nos mosteiros: não os incomodais nem destruais seus templos”. Em sintonia com as palavras do profeta: “Deixai-os paz e ao que se consagraram”. A presença do monge no túmulo de Santiago, concerteza que fez relembrar Almanzor, pelo que mandou que fosse constituído guarda de proteção.

          Santiago não só recuperou sua identidade e estrutura, como acrescentou, tendo sido erguido de novo uma basílica idêntica à destruída por Almanzor, e construindo pouco depois a catedral românica, que deixou admiração ao geógrafo ceutense Al Idrisi na sua descrição do templo do Século XII e os caminhos de peregrinação que a ele conduziam.

Baldaquino          Outro episódio histórico relevante sobre a integridade dos restos do sepulcro jacobeu, protagoniza-o o arcebispo DIEGO GELMIREZ. Uma vez terminada a catedral, Gelmírez propõe-se eliminar do presbitério a Edícula (nicho) sepulcral e substituí-la por uma armação em madeira forrada que permitisse um culto aberto à catedral. Só irá alcançar os seus intentos após superar uma sólida resistência do Capítulo, que se opõe à demolição por considerar uma obra apostólica. Depois de o conseguir, mandou seccionar a Edícula (nicho) que sobressaia ao meio do presbitério ficando apenas a parte soterrada. A consequência desta obra, é que se perde o acesso ao núcleo sepulcral e o contacto com os restos. Antes da realização da mencionada alteração, Gelmírez presta-se a efetivar uma última doação de uma ossada, outorgada ao bispo de Pistoia, em 1138, relíquia que terá posteriormente tido uma grande importância no redescobrimento dos restos. Mas com o tempo esta perda de contacto vai gerar dúvidas sobre a existência dos mesmos.

Gelmírez Reforma

           A explicação a estas dúvidas irá progredindo com o decurso dos séculos sem demasiada influência no questionamento da credibilidade jacobeia até ao Século XIX, que contribui uma sucessão de acontecimentos que contribuem para um certo desprestigio do culto jacobeu e das peregrinações ao túmulo do Apóstolo Santiago que tomam o interesse da cristandade no Séc. XIX em prejuízo de Compostela.

          É o momento de analisar uma surpreendente sucessão de factos que provocaram o EXTRAVIO E REDESCOBRIMIENTO DOS RESTOS DE SANTIAGO. Em 1589 a expedição de Francis Drake (Sir e almirante para uns, infame e corsário para outros), contra A Corunha, supõe uma ameaça para Compostela, tendo sido solicitado auxílio a Filipe II. As tropas inglesas profanaram as igrejas e avançaram sobre Compostela com a declarada intenção de destruí-la e desrespeitar as suas relíquias, consideradas “principal empório da superstição papal”. Este risco em associação com a condenação do luteranismo ao culto das relíquias, fez temer pela segurança do sepulcro, pelo que o Juan de Sanclementearcebispo Juan de Sanclemente, decidiu esconder as mesmas, retirando-as da cripta e colocando-as num lugar seguro, de modo a que os restos guardados, de Santiago e seus discípulos, deixaram a sua localização habitual e passaram para um local secreto, só conhecido por alguns, o que agregado ao desenvolvimento arquitetónico da catedral, com contínuos acrescentos de novos estilos, resulta num verdadeiro “extravio”. Anos depois, perante a inquietude popular pela localização exata, chega a referir-se que as relíquias estão enterradas e bem escondidas, de forma que ninguém consiga alcança-las. Tal é o zelo com que foi guardado o segredo que, aqueles que tinham conhecimento, desapareceram sem passar a informação, de forma que durante três séculos a localização dos restos do Apóstolo ficou ignorada. Esta surpreendente situação levanta uma obscuridade com mais incógnitas do que dados objetivos, convertendo Santiago num mito a respeito da passagem do Apóstolo por Espanha e a veracidade do seu sepulcro.

          OLYMPUS DIGITAL CAMERAJá ocorreu um fenómeno similar com restos de S. Francisco de Assis, no ano de 1230, 4 anos depois de sua morte, foram trasladados para a basílica de S. Jorge, acabando por ser consagrada com o seu nome. Os restos foram enterrados com tanto zelo na nova igreja, que o túmulo apenas foi reencontrado em 1818, 6 séculos depois da sua morte. Esta descoberta, relevante para a cristandade na época, associado a outros acontecimentos de grande valor doutrinal, como a proclamação do dogma da Imaculada Conceição (1854), o aparecimento da Virgem de Lourdes (1868), a canonização de Joana d`Arc e a sua nomeação como patrona do França (1870), relegam Compostela a uma situação enigmática em que toda a história da cidade, todo seu poder aglutinante, toda a imensa atração do seu nome e as suas virtudes serão postas em causa e desacreditadas. Surgem hipóteses que desmentem a possibilidade de que Santiago tivesse pregado em Espanha e, mais ainda, de que os restos mortais tivessem localização na Galiza, e portanto, o túmulo, a existir, não continha os restos do Apóstolo, mas talvez os de outra personagem, cujos antecedentes foram objeto de confusão com algumas coincidências da Tradição Jacobeia. Assim surge, entre outras, a hipótese de que os restos que descansam em Compostela são, habitualmente identificado, de Prisciliano, singular hipótese que veremos depois com mais detalhe.

Payá Rico          Esta conjuntura origina que o cardeal Miguel Payá e Rico resolva mandar realizar escavações no subsolo da catedral. Com a desculpa de realizar reformas, mas na realidade com o propósito de resolver as dúvidas crescentes, surgindo as EXCAVAÇÕES DEBAIXO DO ALTAR MAIOR da catedral, que autoriza no final de 1878, dirigidas por Labín e López Ferreiro. Após escavar em 5 lugares sem obter resultado, decide procurar debaixo do altar maior e encontra a Edícula (nicho) romana em blocos de granito, repleta de escombros removidos, mas vazia de relíquias. Anteriormente, a tradição indicava que haviam Nueva imagen (4)sido trasladados para as traseiras do altar, pelo que foi escavado no fundo da abside, que em 1532, se tornou sacristia dos cardeais, encontrando-se o empedrado medieval, no que tinha sido aberto um nicho sobre a rocha e coberto com uma lousa, que ao ser aberto, é encontrado um ossário com três esqueletos de grande antiguidade pertencentes a 3 homens, sendo dois deles com uma idade próxima a dois terços de uma vida média, e outro que ultrapassava amplamente esse limite, com evidências de um traslado apressado desde a relicario_san_lorenzo_escorial_monasterioEdícula (nicho) vazia até este novo lugar isolado a poucos metros de distância. Sem dúvida o que se procurava era proteger os restos mortais e gerar o impacto de que o sepulcro estava vazio de relíquias, no caso de que se pretendesse manipular. O ocultamento propositado do bispo Juan de Sanclemente procurava, na sua época, uma dupla intenção em defesa das relíquias: por um lado proteger da ameaça do ataque inglês, e por outro das aspirações de Filipe II a mover os restos, perante o envio por ordem real de Ambrósio de Morais a terras de Galiza e Astúrias para reconhecer as relíquias de Viaje de Ambrosio de MoralesSantos. Desta forma, é entendido o secretismo sobre a localização. Com tal fim, inclusive criou-se uma lenda que referia que ao tentar entrar no túmulo, uma luz brilhante os cegou, tendo sido exclamado: “Deixemos que o Apóstolo se defenda e que nos defenda!”. Costuma passar despercebido a muitos peregrinos e visitantes da catedral, o lugar onde pode ltimahora21ser contemplado, desde a escadaria de subida ao camarim do Apóstolo, para o emblemático ritual do abraço à figura de Santiago, que preside ao Altar Maior. Esse lugar secreto, à época era a sacristia dos cardeais, inacessível ao público, foi executado na rocha o nicho alternativo para esconder os restos jacobeus, cobriu-se com lousas de pedra e escondeu-se por baixo do pavimento, onde permaneceram guardados os restos durante mais de 3 séculos, até que se perdeu na memória.

          Os restos mortais foram submetidos a uma rigorosa análise antropológica e química por catedráticos da Faculdade de Medicina de Santiago. Identificou-se que pertenciam a três homens da antiguidade, e detetou-se a presença de restos de cera e de pigmento avermelhado próprio dos tijolos romanos do sepulcro original, o que veio acreditar que com precipitação e a escuridão da noite, os restos mortais tinham sido trasladados do seu lugar original até ao referenciado nicho alternativo, em plena sintonia com a ameaça relatada. São descobertas que relatam que estes eram os restos mortais que foram enterrados na Edícula (nicho) romana no Século I, que se trasladaram precipitadamente para a mencionada localização alternativa para proteção. O designado “Processo Compostelano”, conclui na proposta de que os restos mortais redescobertos são os do Apóstolo e seus discípulos, anteriormente guardados na Edícula (nicho) romana.

Reliquia Pistoia          O cardeal Payá solicitou ao Vaticano que o “Processo Compostelano” fosse validado. O Papa designa uma Congregação Particular de cardeais e prelados para o caso, presidida pelo cardeal Domingo Bartolini, atuando como promotor Mons. Agostino Caprara, iniciando-se um “Processo Romano” do assunto que visa todo o decurso anterior, obtendo declarações dos peritos, examinando as escavações e com um novo estudo anatómico dos restos mortais. É nesta fase que terá um papel decisivo a citada RELIQUIA DE PISTOIA que Diego Gelmírez tinha doado a S. Atón em 1138, segundo ficou bem documentado e que desde sua dádiva guardava-se naquela localidade italiana com grande veneração. O Cardeal Caprara encarregou um estudo prévio da relíquia de Pistoia que precisou tratar-se de uma ponta da apófises mastóidea do osso temporário do crânio, com uma mancha de sangue, o que explicava que o desprendimento de dito fragmento foi por decapitação. O mais significativo foi que só um dos três crânios carecia de dita apófises mastóidea do lado direito, e com uma concordância plena entre o fragmento pistoyense e o crânio compostelano, o que veio demonstrar que os restos mortais reencontrados eram os mesmos que Gelmírez extraiu, séculos antes, ou seja, a relíquia doada a Pistoia e que vinha sendo guardada desde a descoberta de Teodomiro de Iria Flávia, era a mesma, confirmando-se o conteúdo do Decreto do cardeal arcebispo de Santiago em relação à autenticidade dos ossos compostelanos.

Bula Deum OmnipotensSó então Leão XIII emite em 1884 a BULA DEUS OMNIPOTENS que declara que os restos mortais encontrados são do Apóstolo Santiago, o Maior, e seus discípulos Atanásio e Teodoro. Nada permite sustentar (como tenho visto refletido em alguma opinião indocumentada), que esta declaração papal fosse por inmovilismo eclesiástico, declarada com infalibilidade papal. A questão jacobeia não é tema dogmático de fé, nem de moral cristã que afete em modo algum a doutrina católica, e a conclusão papal é o resultado de um longo e complexo processo, primeiro compostelano e posteriormente romano, que acabou por instruir a decisão papal.

León XIII          Leão XIII não foi em absoluto um papa inativo no tempo. Ao invés, o seu pontificado está marcado por numerosas iniciativas progressistas, como a criação de centros de estudo e investigação académica, a abertura dos arquivos do Vaticano, a instalação de luz elétrica no Vaticano, bem como posturas de âmbito sociopolítico e trabalhista que constituíram passos de aproximação da Igreja ao mundo moderno, em alguns casos, até na frente das propostas sociais. É o caso da sua encíclica Rerum Novarum, que de modo vanguardista desenvolve questões de proteção estatal do trabalhador, a rejeição da luta de classes para solucionar a pobreza e a opressão, a dignidade e liberdade da pessoa quanto ao trabalho e salário, apostando em valores, ainda vigentes, e que lhe valeram o sobrenome de “O Papa dos operários”. Muitos anos após a Bula Deus Omnipotens, e dadas as opções científicas de hoje, seria fácil argumentar de insuficiência técnica ou científica, mas na verdade, Roma atuou com rigor técnico e metódico num tema que não é dogmático nem imprescindível, nem para o Vaticano nem para a fé Católica. Inclusive o resultado da relíquia de Pistoia, nos tempos atuais seria considerado como prova com o objetivo de determinar o valor de uma opinião que não é fácil de superar até aos dias de hoje.

          A CONCLUSÃO de toda esta secção de critérios a respeito da integridade e da continuidade dos restos mortais, é que há um fio condutor contínuo que nos indica uma garantia da Origem dos Restos e não se trata de uma montagem contrafeita. No entanto a dúvida está fortemente instalada e até possui o efeito de aliciar e refutar cientificamente a Tradição Jacobeia desde propostas de historiadores que rotulam a presença de Santiago em Espanha como um fenómeno não histórico, apesar de que apenas se pode referir é que a história carece de argumentos documentários, e perante o que se interpreta é que Santiago é uma farsa. A História, desde uma postura de omissão, tem vindo a converter-se numa justificativa supostamente científica para desqualificar a tradição e para construir vistosas hipóteses que, carenciadas também de fundamento histórico, parecem colher mais crédito que a antiga versão popular e tradicional, e contribui sobretudo o crédito literário e académico a seus promotores, e às vezes à rentabilidade editorial.

Esta entrada fue publicada en 12 - CRITÉRIOS DE INTEGRIDADE E CONTINUIDADE DA EDÍCULA (NICHO) E DOS RESTOS, N- A TRADUÇÂO PARA O PORTUGUÊS. Guarda el enlace permanente.

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