10 – A CONTRIBUIÇÃO DA ARQUEOLOGIA

Tradução por Paulo Santos

Catedral aerea          Os edifícios históricos, religiosos ou civis, além da sua dimensão arquitetónica e artística, têm um grande significado em virtude do longo processo que remontam as suas origens, em especial se forem antigos, e a ligação com a localização privilegiada que ocupam, onde aconteceram feitos não registados pelos historiadores, mas que são raízes de identidade do lugar e do seu meio. Por isso a arqueologia destes edifícios e Excavaciones catedrallugares, faculta acesso ao conhecimento de um processo que transcende à realidade atual do próprio edifício, que inclui os seus antecedentes e que revela dados de etapas em que os testemunhos documentários escasseiam ou não existem. A informação arqueológica vem assim dar significado a lapsos históricos de épocas sem informação escrita, sobre precedentes que de outro modo tiverem permanecido ocultos. Assim entendido, com a colaboração da arqueologia, a catedral compostelana é um completo historial do facto jacobeu desde momentos muito anteriores à Inventio, e transmite uma cidade anterior à Idade Média, que chegou a crer-se inexistente perante a falta de uma história antiga.

 Materiales 2         Nas escavações que, em diferentes momentos cronológicos, se realizaram debaixo do presbitério catedralicio e no subsolo da basílica compostelana, foram recolhidos uma série de restos materiais que contribuem com dados valiosos da dimensão dinâmica do fenómeno jacobeu, em relação à origem cronológica, à evolução no tempo e evidências da peregrinação no tempo. Trata-se de Materiales 1fragmentos de cerâmica, moedas, contas de vidro, etc. Há cerâmica romana do final do Século I a meados do Século III, que nos remete ao primeiro núcleo romano. Cerâmica do primeiro povoado compostelano (Séculos VIII-X), e do seu apogeu medieval e construção da catedral românica (Séculos XI-XIII), até à época do baixo medieval e moderna. Há Igualmente um número diversificado de moedas desde a época romana à moderna, e como reflexo cronológico e geográfico da peregrinação, é significativo evidenciar a presença de exemplares dos reinos hispanos, de moedas francesas junto a outras de diferentes procedências europeias, como a alemã ou a italiana.

Mosaico          O conjunto de revestimento ornamental de mármore e rocha própria dos mosaicos, característico nas construções romanas, ou os objetos de vidro datados do Século I e II, em sintonia com achados mais recentes na praça de Quintana e no Claustro, vêm a confirmar a existência de um importante ALDEAMENTO ROMANO ALTO-IMPERIAL no que dará origem ao locus apostólico. A partir deste ponto, a interpretação dinâmica dos achados arqueológicos permitem conhecer uma conversão como centro de culto sepulcral que gerou a cidade de Compostela, primeiro em torno da edícula (nicho) sepulcral romano, depois guardado nas basílicas dos reis asturianos e depois na sua esplêndida catedral românica, constituindo elementos reconhecíveis pela arqueologia como raízes do fenómeno jacobeu que transforma um culto sepulcral local num culto peregrinante de dimensão europeia.

          Ainda que sem a pretensão arqueológica exaustiva, desde a proposta multidisciplinar desta análise, interessa descrever minuciosamente três achados arqueológicos importantes para o contexto argumental da tradição: A pedra da sepultura do bispo Teodomiro, a Edícula (nicho) sepulcral romano e a Necrópole paleocristã.

          A PEDRA DE SEPULTURA DE TEODOMIRO é uma lápide do túmulo do bispo que protagonizou a descoberta do sepulcro apostólico. Ignorada durante séculos, foi encontrada durante as escavações no subsolo da catedral entre 1946 e 1959, no interior de um recinto geminado com a metade do muro sul da basílica mandada erguer por Afonso III, localização que hoje ocupa a extremidade do cruzeiro atual. Trata-se de uma grande lousa granítica, com mais de dois metros de comprido por quase um metro de largura, que possuí gravado a cruz de Afonso II e uma inscrição que nos revela a historicidade da personagem e consequentemente a importância do seu descobrimento. Só um achado muito relevante poderia provocar a trasladação desde a sede original, em Iria Flávia, para um novo lugar, que veio a constituir a sua sede episcopal, sem a designação eclesiástica, e onde ficasse localizada a sua própria sepultura, em plena reciprocidade com o culto sepulcral que subjaz em Compostela.

Lauda

          EDÍCULA (NICHO) SEPULCRAL ROMANO Nas explorações realizadas entre 1875 e 1886 foi encontrado, no subsolo do presbitério, um monumento funerário de edículoorigem romana atribuído ao Século I. A ausência da porta de acesso inferior e o estudo comparativo com outros edifícios da época permitiu reconhecer que se trata de uma edificação de duas plantas, uma inferior destinada à câmara sepulcral, e outra superior dedicada ao oratório ou culto memorial, com ligação através de uma escada interior, e que ao longo do tempo foi sujeita a uma série de transformações conforme veremos. Os estudos de 1988 têm revelado como descoberta de significada importância, a existência de uma abertura, pequeno orifício para ter acesso às relíquias acondicionadas em tecido e em contacto com os restos (brandeum), indicativo de que se trata de culto a mártires cristãos da época romana, sendo fenestellaoriginário aquando da construção do muro romano, e não por rotura subsequente. Neste trabalho, Isidoro Millán Gonzalez-Pardo revela uma descoberta surpreendente, tendo realizado uma série de slides dos sepulcros laterais, que permitiu descobrir a tampa da abertura com a inscrição Atanásio mártir, precisamente um dos discípulos da lenda jacobeia, escrito em grego e hebraico, com símbolos da simbologia mística, que poderiam ser comparados com os do cemitério do Monte das TapóncalcoOliveiras, em Jerusalém. A descoberta, rotulada de polémica e questionável, permanecida adormecida durante anos, até que os recentes estudos de Enrique Alarcón, da Universidade de Navarra, encontraram nesta inscrição outros significados que revalidam a Tradição Jacobeia. Refere que a descoberta da palavra Jacob entrelaçada com a palavra grega “mártyr” – significa “testemunha”. Para Alarcón, a simbologia da inscrição é muito rica, com alusões à festa Judaica de inscripciondelsepulcrodesantiagoShavu’ot, equivalente à do Pentecostes cristão, com indícios dos rituais do início do cristianismo. A descoberta remete às inscrições encontradas nas sepulturas do primitivo cemitério judeu-cristão de Jerusalém. Alarcón recorda que é no Pentecostes, que os apóstolos iniciaram a evangelização a todos os povos, por mandato de Cristo, de saírem de Jerusalém e serem suas testemunhas até a Finis Terrae. Nessa linha Alarcónsustenta que a inscrição se refere a Santiago como cumpridor desse mandato: testemunha de Cristo em Finisterra; ainda que nada indica que, no início da era Cristã, o que hoje chamamos Finisterra, tivesse já essa designação. No entanto, existe diversa documentação histórica de que, para numerosos eruditos gregos e romanos, o extremo ocidental da terra encontrava-se por esse lugar, o que é uma referência contemporânea, em que a descoberta, e o seu julgamento, “confirma a tradição” que situa o Apóstolo em terras hispânicas e a sua sepultura no templo compostelano.

          A hipótese, polémica e questionável, carece da confirmação académica, mas não deixa de ser um critério que, com toda a prudência que o caso merece, deve ser também colocado na relação de critérios e argumentos.

          NECRÓPOLE PALEOCRISTÃ As escavações de 1946 a 1959, realizadas por diversas fases no subsolo da basílica compostelana, deixaram a descoberto uma intrincada de várias sepulturas romanas, suevas e medievais, dos Séculos II e III, em que sobressaem elementos comuns que demonstram a existência de um culto cristão, que se transmite em torno da tumba principal para onde estão orientadas.

Necrópolis paleocristiana          A conclusão destes achados, ainda com margem a futuras análises e investigações, não deixam nenhuma dúvida de que Compostela não é uma invenção, nem uma montagem, mas sim uma verdadeira descoberta, com antecedentes não refletidos nas crónicas, que guardam uma surpreendente aproximação com a lenda da Tradição Jacobeia.

Esta entrada fue publicada en 10 - A CONTRIBUIÇÃO DA ARQUEOLOGIA, N- A TRADUÇÂO PARA O PORTUGUÊS. Guarda el enlace permanente.

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión / Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión / Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión / Cambiar )

Google+ photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google+. Cerrar sesión / Cambiar )

Conectando a %s