6 – CRITÉRIOS DA VERDADE NAS ESCRITURAS

Tradução por Paulo Santos

          pechina03Um capítulo que me parece de grande valor é o que denomino A AUSÊNCIA DE SANTIAGO. Nos Atos dos Apóstolos, contrasta que dos três apóstolos favoritos, consta a presença de Pedro e João, em relação à ausência da menção a Santiago. A presença de Pedro e João é destacada particularmente na cena da cura do aleijado de nascença junto à Porta Formosa [Act 3:1-11], com admiração dos populares em relação ao discurso de Pedro [Act 3:12-26] que ajudasse na conversão de muitos, e que servisse para que fossem reprendidos pelo sinédrio [Act 4:1-22].

          O prestígio e a presença de Pedro é realçado depois em milagres como a cura de um paralítico de Lídia e a ressurreição de Tabita em Joppe.

Milagros San Pedro

          Em relação a esta significativa presença contrasta a ausência de Santiago, em que nada é referido até ao seu martírio, o que pode estar a sugerir que Santiago não estava presente e ser interpretado que este longo e indicado afastamento traduza uma “Ausência por viagem longínqua e duradoura”.

          No relato da morte de Santiago contrasta a menção sucinta nas escrituras [Nesse tempo, o rei Herodes começou a perseguir alguns membros da Igreja, e mandou matar à espada Tiago, irmão de João. Vendo que isso agradava aos judeus, decidir prender também Pedro. Eram os dias da festa dos pães sem ferimento. Depois de o prender, meteu-o na prisão e confiou-o à guarda de quatro grupos de quatro soldados cada um. Herodes tinha a intenção de apresentar Pedro ao povo a seguir à Páscoa.-Act 12:1-4]. Esta é toda a informação existente, contrariamente ao abundante 1024px-Rembrandt_Harmensz._van_Rijn_150conhecimento da morte do diácono Estevão, que sendo uma personagem menos relevante, nos Atos dos Apóstolos, é relatado com extensão e detalhe da sua nomeação e trabalho [Act 6:1-7], a sua detenção [Act 6:8-15], o seu discurso [Act, 7:1-53], a sua morte [Act 7: 54-60], e o seu enterro [Act 8:1-3]. De Santiago, no entanto, nada é referido, nem é mencionado sobre o enterramento, o que sugere que Santiago não foi sepultado, que de facto não pôde ser de modo formal. Então, como se explica o vazio nas escrituras de um dos apóstolos prediletos de Jesus? Se o diácono Estevão morreu no ano 34 e guardam-se dele tal quantidade de detalhes, como é que não é mencionado, nem um comentário isolado, nem uma lembrança a respeito de um dos líderes do cristianismo? É uma diferença muito significativa que pode ser entendida como um novo argumento, no âmbito do desconhecimento, por uma evacuação clandestina do corpo.

          E do seu Sepulcro? Não existem vestígios do culto sepulcral jacobeu em Jerusalém. Um peregrino anónimo da Terra Santa, no século V, conhecido como o Placentino (de Piazenza) deixou uma simples notícia sobre o facto de ter visto a túmulo de Santiago no Monte das Oliveiras. Isto é tudo o que há sobre Santiago, o Maior, desde os primeiros séculos até nossos dias. O depoimento de um peregrino que não traduziu em concreto a localização sobre uma sepultura ou mausóleo definido. Este dado anónimo, isolado e carenciado de toda a confirmação, longe de ser um indício positivo do culto sepulcral de Santiago na Terra Santa, é precisamente um critério de carência do mesmo, podendo haver confusão com Santiago, o Menor, o primeiro bispo de Jerusalém, ou com o diácono S. Estevão, como acontece com o sepulcro de Cristo, atribuído por alguns à igreja de Santa Maria, mas que para além da certeza, constituem verdadeiros cultos sepulcrais.Templo Santiago Alfeo07cappellaArmeniBig

          Tudo o que fica na memória acerca de Santiago é que foi decapitado em Jerusalém, e perante a carência sepulcral, contrasta o culto que os Arménios rendem à decapitação de Santiago, o Maior, na Cidade Santa. No Grande Templo arménio de Jerusalém (antes georgiano) pode apreciar-se o local preferente da nave central, o trono ou cátedra de Santiago, o Menor (irmão do Senhor), por debaixo do altar maior, guarda a tradição de estar localizado o túmulo, que ocupa um espaço importante da Igreja. Isto é, este templo tem como valor principal o culto sepulcral a Santiago, o 07santuarioGiacomoBigMenor. A Santiago, o Maior, só existe dedicado a capelinha da decapitação, onde se diz que está enterrada sua cabeça mas sem certeza plena de tal relíquia. A própria tradição Arménia menciona que o corpo foi trasladado para Espanha, e o texto original que o refere é dos princípios do século VII, traduzido à língua arménia entre o ano 620 e 638, muito antes da descoberta do sepulcro compostelano. Esta tradição encaixa bem com o facto de que muitos peregrinos arménios, perante a descoberta do sepulcro jacobeu, fossem a Compostela no século XII, como é referido no Codex Calixtino.

          Tudo isto só pode ser interpretado como que o Apóstolo Santiago não foi enterrado em Jerusalém. Por isso, a ausência da sua figura nas Escrituras, a carência do culto sepulcral, e a tradição Arménia, justificam bem algo que se adapta com a lenda, ou seja, que Santiago se ausentou durante um longo tempo, e que aquando do seu regresso foi executado, e depois clandestinamente evacuado para um lugar longínquo.

martirioSantiagoZurbaran          Sobre a DECAPITAÇÂO DE SANTIAGO, Herodes Agripa, educado em Roma na corte imperial, ao ser reconduzido no governo judeu, é visto como um judeu fictício e romanizado, mais vinculado a Roma do que a Israel. Herodes precisa conciliar-se com o povo e o Sinédrio, e assessorado por este, manda deter Santiago e condena-o por traição ao judaísmo, cuja pena, segundo alguma tradição israelita, é decapitação sem sepultura. Para apagar a memória do condenado, o cadáver era enviado à Gehena ou Vale de Hinón, precipício junto à muralha sudoeste de Jerusalém, que se converteu em desaguadouro da cidade onde se incinerava lixo e cadáveres de animais ou de algum criminoso. Deixar sem sepultura era a maior afronta que se podia fazer a um judeu, e este destino tão utilizado em Jerusalém, que gozava de certa tradição, demonstra bem o fim criado para um decapitado por traição ao judaísmo.

pedro_liberacion          É dado grande valor à LIBERTAÇÃO DE PEDRO, detido imediatamente após Santiago, com o mesmo objetivo, ou seja, para obter crédito entre os judeus por parte de Herodes Agripa. As Escrituras mencionam muito claramente que, depois da condenação de Santiago, que Herodes “vendo que este procedimento agradava aos judeus, prendeu também Pedro…”. Mas as Escrituras relatam também a sua libertação milagrosa e que Herodes, muito contrariado e frustrado do seu propósito, aplicou represálias contra a guarda. À margem de que fosse ou não um feito sobrenatural, a situação ajusta-se a uma intriga libertadora, num cristianismo que contava com apoios em todos os sectores da sociedade judia e romana, particularmente entre o Sinédrio e o exército romano, que consegue salvar Pedro mas que não chegou a resgatar Santiago, pelo menos com vida. Tudo decorre durante o grande debate entre o judaísmo e o cristianismo, cujo maior expoente era a “abertura aos gentios”, questão que choca frontalmente no judaísmo, que se mostra intransigente no seu conceito de ser o povo eleito e que aguarda o seu Messias libertador, mas que não aceitam ser na figura de Jesus Cristo, criando assim a rejeição judia, perseguindo e detendo os apóstolos e seguidores do cristianismo, a quem consideram como traidores. A represália de Herodes e a carência histórica do sepulcro em Jerusalém e Palestina, dão sentido à evacuação clandestina do corpo de Santiago, que a ocorrer, não foi numa Barca de Pedra, mas sim num sarcófago bem calafetado, a bordo de uma embarcação, que realizava com periodicidade a rota entre a Palestina e o noroeste Hispano.

casa curtidor          A CONSERVAÇÃO DO CORPO numa viagem tão extensa é outra raiz que longe de ser insuperável, se encaixa bem com a citação nos Atos dos Apóstolos de Simão o Curtidor [Ele está hospedado na casa de um curtidor chamado Simão, que vive perto do mar. – Act 10:6]. Atualmente, a fachada desta casa é conservada como visita turística de Joppeinteresse local, estrategicamente situada em frente ao Mar Mediterrâneo, junto ao farol. Simão, o Curtidor, é um profissional na conservação de corpos e peles, fiel ao cristianismo, e residente em Joppe (Jafa), hospedou Pedro em sua casa, em pleno conflito com o judaísmo. No sótão da casa, Peter's_vision_of_the_sheet_with_animalsPedro decidiu a abertura aos gentios, que as escrituras relatam em forma de êxtase visionário [Act 10:9-16] em que descortina que não se deve considerar profano ou impuro nenhum homem, ainda que não fosse judeu [Act 10:27-29]. Foi hospedado nesta casa, que o centurião Cornélio, um gentio descrito nas Escrituras como justo e temeroso de Deus, a quem Pedro decidiu 220px-Baptism_of_corneliusconceder o batismo, bem como à sua família. Cornélio é centurião de uma corte da cidade hispana de Itálica, pelo que a sua participação neste enredo jacobeu, com uma guarda romana que procura escapar à represália herodiana, pode ser uma boa justificação para a fuga, com o corpo do apóstolo Santiago, tratado por Simão, o Curtidor, fosse encontrado uma via favorável de evacuação desde Joppe, por mar, e o seu destino pudesse ser muito bem as terras de Espanha.

          Em sintonia com a ausência de Santiago, o silêncio sobre o seu funeral, a libertação de Pedro, o culto de enterro dos judeus aos seus mortos, e a presença de Simão, o Curtidor, é lógico considerar a existência de uma iniciativa de resgate do corpo do Apóstolo e conseguir uma forma de fugir da Palestina, de modo completamente clandestino, seguramente apressado, tendo em conta o risco que presumia viajar com o corpo de um dos mais destacados líderes de uma ideologia recusada por judeus e romanos. A via marítima era o melhor recurso, desde Joppe, o porto mais próximo de Jerusalém, onde o seu corpo pôde ser convenientemente tratado e ocultado, e depois transportado até onde pudesse ser bem recebido, talvez até custodiado pela guarda do exército romano até Itálica, em Espanha. Se esteve a pregar nos confins da terra, porque não voltar ali, onde provavelmente encontraria um lugar adequado para o sepulcro? Quem o ouviu pregar e o venerou, aceitaria de bom grau a localização do seu túmulo, que ocuparia um lugar de admiração e respeito. Guardar a sepultura seria o último serviço, anónimo e clandestino, como todo o processo, de forma que se acabou por perder no decurso da história, quando se sucederam as colonizações, as guerras, as invasões, as mudanças de credo, as lutas doutrinais, e ainda o tempo, que ajudou ao ocultamento. Se esta viagem é clandestina, a sua repercussão foi escassa; apenas o imprescindível para deixar uma certeza na memória popular local, instalando-se como uma mensagem subliminal.

          Toda a argumentação dá sentido à evasão de Joppe, a conservação do corpo e a evacuação por mar, de modo que a velha Tradição Jacobeia não é uma opção caprichosa e incrível, mas uma possibilidade coerente e a resposta mais lógica e viável das circunstâncias da morte do Apóstolo Santiago.

Esta entrada fue publicada en 6 - CRITÉRIOS DA VERDADE NAS ESCRITURAS, N- A TRADUÇÂO PARA O PORTUGUÊS. Guarda el enlace permanente.

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