4 – DUAS TRADIÇÕES NUMA

 Tradução por Paulo Santos

Predicación Santiago          É necessário referenciar que na lenda de Santiago há duas partes bem diferenciadas. Uma que aborda a viagem de Santiago para Espanha e a sua pregação em terras espanholas, e, outra que se refere ao traslado dos restos do Apóstolo na Galiza por alguns discípulos, que tê-lo-iam trazido desde Jerusalém, onde foi martirizado. Por tanto, mais que uma única tradição, são duas tradições numa, que convém distinguir.

Codice_Pergamino          A primeira situa Santiago em Espanha, não necessariamente nem exclusivamente em Galiza, e apoia-se numa tradição oral cuja origem está nos inícios do cristianismo, reforçada depois por depoimentos documentários que sugerem a existência de uma Tradição que se transmite através dos séculos. A segunda inicia no século IX, e compõe-se de dois elementos: primeiro que consiste na revelação do túmulo do Apóstolo Santiago (Invento), e segundo, posteriormente, que relata como aconteceu a trasladação dos restos mortais.

 compostela127         Ambas as tradições têm sua própria argumentação, e mais que desassociar há que analisar. Cada uma delas reforça a outra, e realmente são dois momentos da mesma Tradição, como antecipa Beda, o Venerável, no século VII, pois além de falar da evangelização de Santiago em Espanha, associa a um traslado: “Os ossos sagrados deste Apóstolo bem-aventurado, foram trasladados a Hispânia, e em sua parte extrema, postas a salvo em frente ao mar Britânico”. O termo britânico não se refere às ilhas Britânicas, nem à Bretanha Francesa, mas sim a Britonia, diocese de Bretoña, no noroeste de Espanha, cuja sede bande-prov-ecl-galicia-visig_opt2era Santa Maria de Bretoña, hoje San Martín de Mondoñedo (Lugo). Isto é, a conexão entre as duas tradições era já existente antes de aparecer nos textos que procuram explicar o invento e a Trasladação, antes da descoberta dos restos apostólicos. É importante realçar, um facto singular no aparecimento dos elementos da Tradição é que sucedem em ordem inversa, primeiro é revelado o sepulcro, e posteriormente, surgem as narrações que explicam a Trasladação. É uma questão contraditória que muitos têm usado como critério de falsidade, mas que tem uma justificação muito racional. Primeiro é descoberto o sepulcro, porque a sua localização foi um facto local de escassa ou nula difusão que se perde na memória de uma cristandade principiante e castigada. Será após a descoberta quando surge a necessidade de explicar o traslado sobre os indícios de uma tradição oral muito diluída e deformada.

Concordia antealtares          Se Santiago tinha morrido em Jerusalém, onde estava o seu corpo? Para responder a isto era necessário uma descoberta formal, que de acordo com os costumes da época só podia surgir de modo convincente por meio de prova. A primeira referência escrita ao testemunho, encontra-se em três antigas cartas de Compostela do Século IX, (anos de 829, 844 e 854) em que se menciona que o corpo de Santiago foi divulgado no ano de 813, sendo Teodomiro bispo de Iria Flávia, durante o reinado de Afonso II, o Casto, e que a descoberta teve lugar no Vale de Amaia, mas nada refere sobre às circunstâncias da revelação.

          O relato do invento aparece em “Concordia de Antealtares” (1077), entre Diego Peláez, bispo de Iria Flávia, e Fagildo, abade do Mosteiro de Antealtares. A construção da futura Catedral de Compostela, teve como base uma pequena basílica e um mosteiro com uma comunidade de monges que estava responsável pelo culto das relíquias do apóstolo Santiago, erguido no flanco Este em frente à porta de acesso ao mausóleo sepulcral romano, pelo que recebeu a denominação de Antealtares. Não existem vestígios pois foi demolido para o levantamento da catedral que substituiu a basílica mandada erigir por Afonso III, no lado oposto da edícula (nicho), que permanecia entre ambas as construções. A mencionada demolição provocou um litígio entre basílica e o mosteiro, dado que a edificação da catedral implicava a destruição do edifício monástico. O entendimento entre as partes, foi concluído com a assinatura de um documento de acordo sobre a nova localização do mosteiro, com garantias e ajustes de que os monges deixavam à Igreja a alteração dos privilégios na nova catedral, que centralizará a guarda do sepulcro apostólico, de cujos restos é relatado a sua procedência. Questiona-se o valor documentário por surgir dois séculos e meio após a descoberta, mas junto ao antecedente mencionado, há que acrescentar que o acordo não procura preencher um vazio que não constituía preocupação na Compostela feudal, mas resolver um conflito de interesses e organizar a guarda do corpo santo. O suposto vazio estava preenchido por uma tradição oral que acaba por encontrar justificação numa expressão escrita.

          O conhecimento popular e a convicção da igreja, provocam a elaboração de um relato que explique a qualificação em Espanha, o martírio em Jerusalém e a sepultura na Galiza.

  fotob        O documento mais antigo é a Translatio Sancti Jacobo, recolhida no Codex Calixtino e a História Compostelana (Século XII), e adornada depois na Lenda Aurea de Jacobo da Vorágine (século XIII). É a compilação anónima no Século IX de textos relacionados com o Apóstolo, da tradição oral popular do lugar, originalmente vulgar e próprio da sua declamação e, talvez entoação, com um certo acompanhamento musical em foros populares públicos. O seu conteúdo mistura a Tradição com os Sete Varões Apostólicos da Bética que são os discípulos de Santiago, três dos quais permanecem a guardar o sepulcro, e os outros quatro separam-se para pregar. Inclui termos locais como Iria e o Bico Sacro, e mitos populares como o dragão, os touros bravos e a submersão da ponte.

leyenda 1493.          O segundo documento que explica o aparecimento do corpo do apóstolo em Espanha é a Epístola de S. León. Desta existem três versões, em que se vai adaptando uma narração mais cuidada no fundo e nas formas em evolução desde o popular ao culto. A primeira, redigida entre finais do Século IX e inícios do Século X, é a versão da abadia de S. Marcial de Limoges, supostamente atribuída a S. León I, papa entre os anos 440-461, conhecido na Galiza em relação ao priscilianismo; fiel à Translatio, mas traçando melhor os contornos da tradição, e misturando-a ainda com a dos Sete Varões da Bética, citando os três que ficam no túmulo, Torcato, Tesifonte e Anastácio, (os dois primeiros homónimos à lista dos Sete Varões da Bética), e os outros quatro que retornam a Jerusalém. O latim é bastante deficiente, o que traduz inspiração da Traslatio mais popular. A segunda, de finais do Século X, conservada no Escorial, é uma versão mais cuidada, atribuída ao Papa León III (795-816); que elimina os factos milagrosos, demasiado portentosos e apenas cita Anastácio como nome comum à anterior, não pertencente à lista dos Sete Varões. A terceira, é uma redação erudita de finais do Século XI ou começos do Século XII, atribuída também a León III, é a forma que consta no livro III do Codex Calixtino, que reconhece só dois discípulos diferentes aos Sete Varões: Atanásio e Teodoro.

          Já com o fenómeno de peregrinação no auge, desde a convicção no valor da descoberta compostelana, e para dar crédito e ortodoxia à notícia que a mesma tinha confirmado, a Tradição precisa de argumentos que a avaliem e permitam uma difusão sólida e adequada. Pode dizer-se que se procura promover Compostela com princípios equivalentes à publicidade atual. É o que procura a Carta de S. León, explicando como o corpo de Santiago, o Maior, de quem já se dizia ser o evangelizador de Espanha, depois do martírio em Jerusalém, narrado nos Atos dos Apóstolos, pôde chegar até a costa de lria Flávia e ser enterrado na futura Compostela. O propósito básico, comum a todas as versões, é a certificação do primado da Igreja como aval eclesiástico. As diferentes versões são sucessivas adaptações da Translatio para converter a tradição popular oral numa tradição escrita, erudita e culta, desmitificando o traslado e desvinculando da Tradição dos Sete Varões Apostólicos.

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