2 – ORIGEM DO CAMINHO DE SANTIAGO

Tradução por Paulo Santos

          Então, qual é a origem do mítico Caminho de Santiago?

          A História fornece a primeira resposta: a origem é a descoberta do Sepulcro Jacobeu na alta Idade Média, em terras da Galiza. A partir daqui pode-se duvidar da identidade dos restos que ali se veneram, mas este achado é o único impulso generatriz acreditável do Caminho de Santiago.

          Alguns teorizam uma origem muito anterior, fruto de supostos antecedentes pagãos pré-cristãos na costa galega. É inegável a existência de cultos pagãos pré-cristãos, porque a existência de cultos religiosos são consubstancias ao homem e portanto anteriores a Cristo, mas o que não se pode dar por certo é que um culto cronologicamente anterior seja antecedente de outro posterior.

          É inegável o sincretismo entre cultos pagãos e o cristianismo, fenómeno de todas as culturas e épocas da história. Toda a cultura que se impõe a outra absorve elementos da anterior, e o fenómeno não é uma imposição aniquiladora, como às vezes se censura ao cristianismo, mas sim um processo espontâneo resultado de uma coexistência de cultos e costumes enraizadas que a querencia popular mistura e funde como apenas uma, do modo que uma se submete à outra, mas subjazendo dentro dela, às vezes de modo muito reconhecível.

          Mas este não é o caso do Caminho de Santiago. Não é produto de um fenómeno de sincretismo cultural, dado que o seu início está bem acreditado como fenómeno sociocultural próprio de identidade bem contrastada por diversos autores. E não se trata de negar a existência de precedentes, mas sim de estabelecer uma origem e, portanto, de querer que um facto arcaico é a causa de um facto posterior ou apenas cronologicamente anterior. Muitas coisas têm existido antes no amplo trajeto de espaço e de tempo do Caminho de Santiago, mas é bem identificável quando um fenómeno é subsidiário cultural de outro prévio, ou quando se instaura como acontecimento peculiar com própria constituição. Se procuramos relações de tudo com tudo, então tudo começa no Paleolítico, onde surgem as primeiras migrações humanas, talvez e inclusive antes, com as migrações dos primeiros hominídeos. Mas se analisamos com um mínimo de sentimento, só podemos aceitar a existência do Caminho de Santiago com o surgimento medieval da cidade de Compostela em torno da descoberta do sepulcro jacobeu, no primeiro terço do século IX. O Caminho de Santiago surge e orienta-se para um lugar, para uma personagem e para um significado, não para algo que antes foi uma coisa e a partir de verdadeiro momento se transforma em outra.

          A análise das hipóteses que propõem antecedentes pagãos como origem do Caminho de Santiago tem escasso fundamento (nulo em minha opinião) e com frequência se assentam em propostas esotéricas e em sensacionalismo pseudocientífico. Por vezes com acrescentados interesses editoriais e querencias nacionalistas, esmeradas em recrear as raízes próprias e exclusivas de um povo, quanto mais longínquas no tempo e mais influentes em aspetos atuais, melhor. Os aludidos cultos celtas destas teorias, não são senão cultos locais com alcance num verdadeiro meio geográfico próximo, mas não são cultos peregrinantes, muito menos através do continente europeu por caminhos então inexistentes.

          Sem negar o sincretismo de outros casos, o Caminho de Santiago não é a cristianização de cultos pagãos preexistentes num salto impossível de muitos séculos. E o suposto caminho ancestral até Finisterra, se alguma vez existiu, não é antecedente reconvertido do Caminho de Santiago, mas sim o prolongamento da peregrinação até Finisterra em consequência da peregrinação a Compostela. O próprio ritual da queima de roupas, já se realizava no século XVI (com indícios de ser muito anterior), nos Cruz dos farrapostelhados da catedral, na chamada Cruz dos Farrapos, com um incinerador de pedra onde se fazia o cerimonial de conclusão da peregrinação queimando as velhas roupas como renovação física e espiritual. Não era um ritual pagão, mas sim cristão, documentado desde o século XVI mas com possibilidade de se tratar de uma cerimónia muito anterior, em que o cabido catedralesco proporcionava roupa nova aos peregrinos. Ao desaparecer este ritual, surge modernamente em Finisterra como um gesto romântico e atrativo, que nesse local nunca existiu, pois a queima em Finisterra de hoje em dia é um fenómeno recente que carece da antiguidade e de valor pioneiro e pagão que alguns lhe querem transmitir. É um engano que se pode ver em programas de difusão atual e em guias para turistas incautos. Como acontece, num guia turístico publicado em Munique, Alemanha, no ano de 2010, que informava os leitores com as seguintes palavras: “Entre os peregrinos, até hoje manteve-se a tradição, descrita em relatos medievais, de queimar perto do faro a roupa – ou parte dela – que levaram durante o Caminho. O ritual realiza-se na seguinte ordem – banho no mar, queima de roupa, ver o pôr-do-sol – é a promessa de que na manhã seguinte, acordamos novas pessoas”.

          Mas voltemos à questão sobre a origem do Caminho que, depois destas valorações, podemos então questionar nestes termos: de quem são os restos que se veneram em Compostela? É verosímil que sejam do Apóstolo Santiago?

Carlomagno sueño

          A descoberta da sepultura jacobeia ocorre no primeiro terço do século IX. Mas não no ano de 813 como é vulgarmente citado nas primeiras fontes e que ainda faz parte da própria lenda, procurando sem dúvida o prestígio da emblemática figura de Carlos Magno, que teve supostamente um sonho em que o apóstolo Santiago lhe revela que ao final da via láctea, em terras de Galiza, se encontra o seu túmulo. Carlos Magno morreu a 28 de janeiro do ano de 814, sendo portanto o ano de 813, impossível historicamente, pois nessa data ainda não administrava a diocese de Iria Flávia, o bispo Teodomiro, protagonista da descoberta, mas sim o seu antecessor Quendulfo II, que ainda permanecia no cargo a 1 de setembro de 818, data em que consta no Tumbo A do mosteiro de Sobrado, onde se encontra guardado o último documento com a assinatura deste bispo, como indício claro que morreu não muito depois. Teodomiro não foi ordenado bispo de Iria Flávia antes do ano de 819, e portanto a descoberta do sepulcro compostelano não pode ser anterior a essa data.

 El obispo Teodomiro descubre el sepulcro jacobeo         O achado sepulcral deve ter ocorrido entre os anos de 820 e 830, provavelmente em 829, data do primeiro escrito local onde refere que a descoberta foi no tempo de Teodomiro, bispo de Iria Flávia, aquando do reinado de Afonso II, o Casto, ainda que careça de descrição das circunstâncias do encontro das relíquias. A notícia gerou grande impacto em toda Europa e a partir dessa data surge o início do que será a cidade de Compostela. Em seguida inicia-se a chegada de peregrinos que, transforma o fenómeno de peregrinação através de um Caminho que flutua com o progresso da Reconquista, a norte da Península Ibérica. Mas pouco depois o Caminho converte-se numa realidade objetiva em que se fixa a rota do chamado Caminho Francês, sobre o que se criam pontes, mosteiros e hospitais, de ajuda ao peregrino, e é protegido com editos reais que procuram repovoar, colonizar e desenvolver as terras atravessadas pela rota jacobeia.

Imagen3Imagen2          O outorgamento papal do Jubileu reforça-o como expressão cultural cristã da Europa. Atribui-se a Goethe dizer que Europa nasceu peregrinando a Compostela e que o cristianismo é a sua língua materna, o que independentemente da autoria desta proposta, explica bem o que o papa João Paulo II referiu, quando se dirigiu à Europa em 1982, aquando da visita a Compostela: “Volta a encontrar-te. Sê tu mesma. Descobre as tuas origens. Aviva tuas raízes…”. Pois bem, a Tradição Jacobeia é uma dessas raízes, talvez a mais importante e influente na Europa, e merece uma análise do seu conteúdo.

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7 respuestas a 2 – ORIGEM DO CAMINHO DE SANTIAGO

  1. clinete@lacativa.com.br dijo:

    Hola, Alberto

    Gracias por el envio de tus textos sobre el Camino.

    Puedo colocarlos en la pagina web de la Confraria de Santiago de Rio de Janeiro?

    http://www.confrariaapostolosantiago.com.br

    Saludos de Brasil,

    Clinete

  2. Alberto,

    La peregrinación a Santiago me parece seguro que enpezó con es descubrimiento del sepulcro de Santiago, Sin embargo lel Camino en si, no me parece que sea exacto atribuirlo solamente al rito Jacobeo. Los principales caminos que llevan a santiago, en especial las 4 rutas que describe Amery Picaud se dibujan por sobre antiguas estradas Romanas o quizás estradas celtas, seguramente anteriores al siglo XIX, que tenian otras razones que no la peregrinación.

    En mi opinion seria correcto decir que la peregrinacion a Santiago es resultado de descubierta de la tumba, pero no “el” Camino de Santiago incluso porque me parece extremamente incorrecto llamar “camino de santigo” en el singular una vez que hay muchos caminos a Santiago.

    Saludos!

    Jorge Gomez

    • Por supuesto, amigo Jorge, tienes toda la razón, pero no creo que hablemos de cosas distintas, sino de la misma cosa con distinta nomenclatura o con diferente perspectiva. El Camino de Santiago, como ruta de peregrinación, inicia con el descubrimiento del sepulcro jacobeo, y los peregrinos se ponen en marcha por los caminos que tienen a mano, no solo las 4 rutas tradicionales, sino la inmensa red de vías y alternativas que transcurren por toda Europa desde los lugares más distantes, incluso desde todo el mundo conocido, tal como refleja el Códice Calixtino, pues hay constancia que llegaban peregrinos de todas las latitudes, por caminos y rutas, lógicamente, ya existentes. Ya la Historia Compostelana (siglo XII) expone que el itinerario de los peregrinos jacobeos es el de la “vía pública”, que usaban los campesinos, los comerciantes, los soldados, los emisarios, los prelados, los legados, los viajeros, los nobles y los reyes, y que a partir de cierto momento usan también los peregrinos para desplazarse hasta Compostela. Evidentemente, no se crea un camino nuevo para llegar a Santiago, sino que se usan la diversidad de caminos existentes para llegar al sepulcro del apóstol. Casi diría que es una obviedad. Al hablar del origen del Camino de Santiago en singular, no me refiero a una única ruta sino al concepto de peregrinación, y a la causa que lo pone en marcha, cuyo origen conceptual, coincidimos, es el descubrimiento del sepulcro compostelano. Gracias por tu comentario y un cordial saludo.

      • Alberto, estoy de acuerdo com tu respuesta,

        Pero hay seguramente una curiosidad de la comunidad Jacobea sobre la origen de o que llamamos “Los caminos de santiago”. Es común, en guias y escritos una gran preocupacion con la ruta histórica. La pregunta lógica es: el camino Frances y las rotas Tolosana, podense, lemovicese y tourense las crio Aimery Picaud siguiendo iglesias que tenia reliquias de santos ? O ya era un camino que se identificaba y Aimery solamente lo documento con mas detalles ? Hay registros del camino (las iglesias, hospitales) anteriores al códice ?

        El códice me parece muy especifico sobre iglesias y sitios santos que un peregrino deveria pasar en su peregrinación, o sea, que habria un “camino” especifico que seria santo y reconocido por la iglesia, ya que esta presente en un códice Papal…

        Sobre ese aspecto “El camino de Santiago” (y no la Peregrinación a Santiago), tendriam su origen en la bula papal.

        Sugiero que incluyas un comentario sobre eso en tu brillante texto, no veo ni mentado el codice…

        saludos jacobeos

      • Hola Jorge: Los Caminos de Santiago son un concepto dinámino y cambiante. Siempre lo fueron, ya desde la Edad Media. Ciertamente el itinerario de Aymeric Picaud sigue un trayecto más o menos determinado, como bien apuntas, por monasterios y reliquias, pero el Camino no tiene una ruta fija ni definitiva, sino que cambia con los tiempos y tiene variantes. El Camino de hoy, por ejemplo, no es el Camino de ayer, sería imposible que lo fuera, pues a través de los siglos ha cambiado por cuestiones de carreteras, lineas ferreas, parcelacioines agrarias, etc. De hecho a través de la historia el Camino cambia y crea variantes a medida que progresa la Reconquista. La bula papal, no es origen ni de la peregrinación a Santiago ni del Camino de Santiago, es un elemento difusor de una iniciativa precedente que la iglesia no inventa, sino que promueve. El orígen del Camino, como apunto en alguno de mis quice capítulos sobre Tradición Jacobea, es el descubrimiento del sepulcro jacobeo en el primer tercio del siglo IX, allí comienza el fabuloso fenómeno de la peregrinación jacobea, y la iglesia tarda varios siglos en reconocerlo y oficializarlo. No memciono aquí el Códice, porque también él es consecuencia del Camino y no su causa, ya que se trata más una voluntad y una motivación que de un itinerario, ni es tampoco un registro de una trayectoria definida que nunca existió de modo oficial exhaustivo. A lo más, se definen puntos de paso, que con el tiempo se han adaptado a los cambios lógicos del progreso. Los peregrinos de antaño desconocían regristros e itinerarios, y muchos no sabian leer ni escribir. Es modernamente cuando surge la necesidad de identificar un trazado mediate flechas amarillas y puntos de piedra por una cuestión logística que busca que el peregrino no se pierda en el rompecabezas de itinerarios, rutas y sendas que harían imposible llegar a Santiago caminando. Muchas gracias por tus interesantes comentarios.

  3. Susana dijo:

    Muchas gracias por la inteligente analises!
    Estoy utilizando muchas de estas ideas.
    Susana

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