1– INTRODUÇÃO INICIAL DA TRADIÇÃO JACOBEIA

Tradução por Paulo Santos

IMG     Quando se entra na catedral de Santiago de Compostela, num ambiente mágico que flutua como uma bruma entre a praça da Quintana e a do Obradoiro, e entre as praças de Platerías e a de Azabacherías, com espírito e corpo de peregrino, e visitamos o sepulcro do Apóstolo e se abraça o busto da sua figura no camarim sobre o altar maior, não deixamos de questionar se serão verdadeiramente os restos ali conservados e venerados há muitos séculos do Apóstolo Santiago, o Maior.

translatio      Atende-se à lenda, como é descrita, de forma abreviada nos panfletos e guias turísticos, nos livros esotéricos, nos ensaios literários, nas novelas de verdades ocultas, ou nos programas radiofónicos ou televisivos que, encontram na noite o seu melhor palco, factos dirigidos à mentalidade consumista e curiosa do visitante fugaz, ou do ouvinte pouco exigente e com avidez de novidades chamativas, a dúvida é mais que inevitável. A lenda conta que o corpo de Santiago chegou à Galiza numa barca de pedra que flutuava sobre as águas, em que repousava o corpo santo, atravessou, por intervenção de forças sobrenaturais, as águas mediterrâneas e atlânticas que separam a Palestina da Galiza.

fachada-del-obradoiro-catedral-de-santiago-de-compostela      A lógica mais elementar, resulta de uma impossibilidade que torna inviável a lenda jacobeia na sua integridade, reduzindo-a a uma tradição piedosa carenciada de todo fundamento histórico, ou a um relato acientífico que não merece investigação nem é digna de estudo, ou à trajetória de um mito que obedece a interesses políticos, militares, eclesiásticos, culturais ou doutrinais. Relegam-se as opções evangelizadoras de Santiago, o Maior, em Espanha e a localização do seu sepulcro na Galiza a iniciativas meramente eclesiásticas que escondem maquiavelicamente um precedente pagão. Misturam-se assim tendências que, encontram fácil difusão num ambiente permissivo e acrítico, perante propostas iniciáticas e esotéricas, com ambição por novidades sensacionalistas supostamente escondidas ao longo da história por interesses doutrinais tendenciosos, num terreno bem abonado pelas reinterpretações antropológicas da Nova Era, com as tendências anticlericais de uma sociedade que, é cada vez mais dominada pela cultura da ciência e do bem-estar, gerando um totum revolutum onde é difícil defender as legítimas opções da velha Tradição Jacobeia.

      Mas então, a colossal catedral que impressiona ver desde a Praça do Obradoiro, o admirável Pórtico da Glória, o prodigioso fenómeno de peregrinação desde séculos, o culto milenário ao Apóstolo Santiago, é apenas fruto de uma tradição apoiada numa lenda que talvez pudesse estar inspirada na boa-fé, na ingenuidade, no engano, no oportunismo, na conveniência, na imaginação, na fantasia, no fanatismo ou na mentira? A contradição é tanta que se impõe uma análise à Tradição com um propósito sem preconceitos e rigoroso para ser concluído se contém indícios ou critérios verdadeiros, ou se pelo contrário, é uma falsidade favorecida pelo decurso da História.

      Este é o objetivo deste trabalho, analisar com rigor os possíveis critérios de veracidade da Tradição Jacobeia, o que não será nada fácil pela amplitude cronológica e o vasto arco epistemológico que abarca, além de que vai contra a corrente em que atualmente o Caminho de Santiago é observado mais como atração e palco de vivências do que como resultado ideológico de um fenómeno sociocultural, sem precedente, com origem própria, que implica a veneração medieval do sepulcro do Apóstolo Santiago. Hoje, isso pouco interessa. Existe ainda a possibilidade dos que inventam origens preexistentes e alteram os princípios históricos da peregrinação jacobeia inventando outras supostas raízes que carecem da raiz original do Caminho de Santiago. Por isso, defender hoje a tradição Jacobeia é também um modo de defender a origem do Caminho de Santiago, porque o Caminho é causa de uma rota de peregrinação e, é o conteúdo cultural e ideológico da causa que o origina. Ambos os aspetos, causa e conteúdo, merecem atenção, pois definem sua identidade geográfica, histórica e cultural.

      Uma citação que reflete o modo como hoje se tende a valorizar a Tradição Jacobeia, foi expressa por Dom Miguel de Unamuno (1864-1936) num artigo jornalístico sobre Santiago de Compostela, escrito em Salamanca no ano de 1912, e recolhido numa seleção de artigos que confirmam uma visão paisagística e poética de Espanha com inquestionável qualidade literária: “Andanças e visões espanholas”. Dom Miguel considera fruto da fé ingénua crer que ali esteja o corpo do Apóstolo Santiago, observando Compostela como resultado da peregrinação milenária que influiu muito unamunona configuração cultural e política da Europa e, particularmente de Espanha. Propõe uma reflexão sobre a possibilidade de que seja Prisciliano, suposto herdeiro e reformador do legado celta, quem esteja realmente sepultado na catedral e afirma que “Um homem moderno, de espírito crítico, não pode admitir, por católico que seja, que o corpo de Santiago, o Maior, esteja em Compostela. Que corpo é, pois, o que se venera na catedral e como se iniciou esse culto?” Esta é hoje uma visão muito alargada sobre a Tradição Jacobeia. Reduz uma antiga tradição piedosa, carenciada de fundamento, e presta atenção a supostos legados celtas, semeando dúvidas sobre a verdadeira ocupação do sepulcro compostelano, presenteando com firmeza a Prisciliano, excluindo Santiago. Não é prudente criar uma interrogação, sem uma análise ao conteúdo, com inclinação para uma opção e fechar portas a outra. A Tradição Jacobeia não é fruto cego de uma fé, senão um velho legado cultural, cuja origem não é eclesiástica, mas sim popular. Não é um princípio doutrinal que define o grau de catolicidade de um católico. As vozes da crítica à Tradição de Dom Miguel, foram repercutidas por um homem da própria Igreja Católica, monsenhor Louis Duchesne, com clara expressão, admitir ou não, de que a Tradição Jacobeia nunca foi uma exigência doutrinal da fé católica, em cujo seio vemos surgirem os detratores jacobeus mais tendentes.

Claudio Sánchez AlbornozAlbornoz      Outra citação que define a postura da ciência histórica em relação à Tradição Jacobeia é de Dom Cláudio Sánchez Albornoz (1893-1984), que afirma “É inverosímil que durante os anos imediatos à morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, anos extremamente difíceis para os seus discípulos; um dos apóstolos, com grande responsabilidade, abandonasse o núcleo primitivo jesuíta para cruzar o Mediterrâneo e trasladar às terras extremas do mundo, a Espanha”. Veremos que há argumentos sólidos para propor o contrário que sugere Dom Cláudio e dizer que a História costuma adotar uma postura apriorística quando eleva a sentença o que não é mais que uma opinião difícil tanto de demonstrar como de rebater. Se a História Medieval está cheia de lacunas, ainda mais está a História Antiga e, não sendo correto fazer afirmações com opiniões pessoais, nem comentários subjetivos ou abstratos, se não for considerado todos os dados e indícios que constituem o caso de Santiago. Inclusive o próprio Dom Cláudio diz: “…nada garante a autenticidade da mágica Trasladação do cadáver apostólico para a Galiza, mas nada obriga a negar, pois na história têm ocorrido muitos acontecimentos não menos ilógicos e inverosímeis que aquela…”. Da forma que Dom Cláudio parece não se definir completamente, abrindo um resquício que a História não tem critérios taxativos para fechar e que nos convida a deixar abertas as possibilidades da Tradição, merecem uma avaliação desprendida e multidisciplinar. Não é esta a postura usual da ciência histórica, cujas opções usuais vão desde ignorar, a considerar cristianização de um antecedente pagão, recusando como produto injustificado de um desejo fervoroso, e inclusive julgar anticientífico o simples facto de ocupar o assunto.

      Outra postura diferente mas que conduz igualmente ao descrédito da Tradição, são as teorias esotéricas, iniciais ou redescobridoras da peregrinação jacobeia como usurpadoras de uma realidade supostamente anterior ou diferente, onde a lenda do Apóstolo Santiago não é mais que a desculpa para ocultar e reconduzir um palco histórico, ideológico ou virtual, completamente diferente e alheio ao jacobeu. Para uns ser jacobeu encobre num antecedente pagão pré-cristão, onde o precedente celta se propõe como verdadeira raiz histórica da questão. Para outros a autêntica verdade Templarios llegando a San Juan De La Peñaestá em factos lendários e misteriosos, onde o sepulcro do Apóstolo com frequência é considerado um tema muito secundário ou inclusive fictício, como meio de um processo de iniciação moral para chegar a verdades apenas ao alcance de alguns. Outros falam de que Santiago é só um mito a cuja sombra se ocultam símbolos e signos que há que saber interpretar, e cuja mensagem é envolvida com o Jogo da Oca, o mundo ritual e segredo dos Templários, os enigmas dos construtores e canteiros, o mistério do Gral, e um verdadeiro final do Caminho que supostamente não é Compostela, mas sim o mar de Finisterra, onde outrora terminava um suposto caminho ancestral que rendia culto, com ritos usurpados pela religião cristã. Para muitos outros, todo mundo jacobeu não é mais que uma farsa ou montagem histórica em benefício de interesses militares e eclesiásticos, onde o único interesse que encontram é a fabulosa produção cultural e artística que se foi gerando ao longo do Caminho de Santiago, ignorando todo o valor generatriz ao motor que gerou este fenómeno sem precedentes: a Tradição Jacobeia.

      Entre estas duas marcadas tendências, erudita e científica, e outra esotérica e parapsicológica, existe uma estreita margem de credibilidade à velha Tradição que limita a possível análise da mesma e a atenção que ambos mundos lhe possam prestar. Por um lado, o mundo do pensamento intelectual da ciência histórica que não faculta nenhuma facilidade às legítimas opções da Tradição, somente permite o recurso da fé, ao considerar a proposta irreal. Por outro lado, as tendências especuladoras e enigmáticas encantam um auditório ávido de novidades, recetivo às propostas mais especulativas, atraentes e inovadoras, fechadas ao que entendem como convencional, especialmente se tem vinculação eclesiástica. Aliás os trabalhos mais interessantes e acreditados da Tradição Jacobeia repousam nas estantes desde o desinteresse generalizado do mundo académico, por influência do esotérico. Inclusive, mantem-se reedições de livros de história, com hipóteses jacobeias que se apresentam erradas, editando-se livros, novelas e programas radiofónicos e televisivos que magnificam as mais descalabras ilusões e ignoram qualquer indício ou critério razoavelmente favorável à Tradição.

      Entre estas duas opções genéricas tão pronunciadas, o Caminho de Santiago converte-se num palco onde ao peregrino nos dias de hoje parece que incomoda falar de fé ou de motivação religiosa ou de raízes apostólicas, e para muitos caminhantes a Tradição é desconhecida ou seu valor é secundário ou nulo. O que hoje se procura é uma experiência renovadora, uma desconexão com o quotidiano, um contacto com a natureza, um marco que nos faça protagonista dos nossos passos, uma vivência pessoal onde o que menos importa é o antecedente histórico, o motor do fabuloso processo que é o Caminho de Santiago: a Tradição Jacobeia. “O que importa é a vivência do caminho”, frase de ambígua leitura que converte o Caminho num bem em si mesmo. “A porta abre-se a todos” é a mensagem de um conhecido poema medieval que não se deve entender como “tudo vale”, mas sim como “todos têm acesso”.

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      Hoje, o Caminho abre-se a muitos interesses, todos os motivos são respeitáveis, mas sem esquecer que o Caminho a Compostela é a expressão cultural da identidade cristã na Europa, cuja raiz é a Tradição Jacobeia. A consequência é que em muitos aspetos, o Caminho de Santiago é mais foco de atenção de turistas e curiosos, do que de peregrinos, e inclusive fonte de exploração de empresas de turismo que convertem a rota jacobeia num mercado ou num parque temático. A deterioração do Caminho ???????????????????????????????está a ser tão grave, que a Associação Galega dos Amigos do Caminho de Santiago (AGACS) em conferência de imprensa que teve lugar em 18-12-2010, em Santiago, com a adesão de muitos apoiantes do caminho e associações jacobeias, denunciou a situação e, solicitou à UNESCO, a inclusão do Caminho de Santiago na Lista de Património Mundial em Perigo, como existe para alguns monumentos localizados em países do terceiro mundo.

      Perante a secularização e exploração do Caminho de Santiago, e a estreita margem de credibilidade que fica entre os académicos e especuladores, proponho estudar a Tradição Jacobeia como conteúdo genuíno do Caminho, o que lhe dá sentido, o mais autêntico, para concluir quais são os seus critérios da verdade histórica e os seus valores no Século XXI.

      Depois desta explicação Inicial e ainda que a cada secção deste blog possa ser consultada de forma independente, para quem prefira uma exposição mais metódica, proponho a seguinte ordem na análise dos temas que este trabalho propõe e que irão ser editados progressivamente:

01 – Explicação inicial
02 – Origem do Caminho de Santiago
03 – Santiago Zebedeu: Entre a História e a Lenda
04 – Duas tradições numa
05 – Critérios da verdade global
06 – Critérios da verdade nas Escrituras
07 – Verdade do destino Hispano
08 – Critérios que justificam o “esquecimento”
09 – A Descoberta do Sepulcro
10 – A contribuição da arqueologia
11 – Evolução do sepulcro e início do culto local
12 – Critérios de Integridade e continuidade da Edícula (nicho) e dos restos conservados
13 – Teorias anti jacobeias
14 – A prova do C14
15 – Conclusão final

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